Os santos chamados a uma vocação muito alta passam por situações especialmente árduas. Assim ensina São Pedro, quando recorda que “apesar das aflições passageiras causadas ainda por diversas provações”, os cristãos devem manter-se alegres, porque Deus submete a fé, como o ouro, ao fogo do cadinho. Todavia, isso redundará em louvor, honra e glória dos bem-aventurados, “quando Jesus Cristo se manifestar” (1Pe 1, 6-7).

Assim se verificou na vida de José de Egito e na de São José.

O primeiro, como se viu, sofreu a inveja dos irmãos. Eles deixaram-se levar pelo orgulho e pela impureza, duas molas propulsoras do mal no interior dos corações. Não aceitaram a superioridade do irmão, eleito pela Providência para destacar-se entre eles, porque viviam embotados na sórdida baixeza, alimentando más conversas.

José manteve-se fiel à Lei de Deus, respeitando e obedecendo a seu pai, Jacó. Pela luz que nele resplandecia, os que viviam nas trevas do pecado não o suportaram: seus irmãos concebem-lhe um ódio mortal, do qual é salvo por um deles, Rubem, quem logra poupar-lhe a vida, mas não impede que seja vendido como escravo a uma caravana de ismaelitas.

001As Sagradas Escrituras não descrevem os sentimentos de José. O que deveria pensar um jovem de dezessete anos ao ver-se condenado à servidão, em terras longínquas? O que seria daqueles sonhos? Não eram promessas de uma glorificação futura? Como se realizariam essas visões? Em meio ao calor do caminho, submetido ao jugo da escravidão, quais eram os sentimentos de José?

Pelos fatos posteriores, bem se constata o abandono de José nas mãos do Senhor. Com efeito, só a confiança em Deus poderia sustentá-lo e abrir as portas para uma série de bênçãos e graças que se derramariam sobre ele. E assim foi: “O Senhor estava com José, e tudo lhe prosperava” (Gen 39, 2). Tal fato foi percebido por Putifar, seu senhor. Deixou-se ele conquistar pela simpatia de seu servo “pondo-o à testa de sua casa e confiando-lhe todos os seus bens” (Gen 39, 4).

Porém, a Providência ainda iria submetê-lo a outra terrível prova. Sua confiança mais uma vez o sustentaria com firmeza quando o chão tremeu com violência sob seus pés. Com efeito, o episódio da esposa de Putifar, estendendo laços maliciosos à fidelidade e à castidade de José, tem um desenlace dramático. O servo fiel é considerado um traidor, sendo recluído atrás das grades do cárcere.

Mas o coração de José manteve-se firme na certeza de ter Deus por protetor e auxílio, e eis o resultado: “O Senhor estava com ele. Mostrou-lhe sua bondade e fez que ele conquistasse a simpatia do chefe da prisão. Este confiou a José todos os presos que ali se encontravam, e nada se fazia sem sua ordem. O chefe da prisão não fiscalizava nada do que fazia José, porque o Senhor estava com ele e fazia-lhe prosperar tudo o que empreendia” (Gen 39, 21- 23).

E no obscuro isolamento da prisão, o varão justo foi galardoado ainda com o dom de interpretar os sonhos, o que lhe valeria a futura libertação, quando o próprio Faraó o chamou para que lhe desvendasse os segredos de uma visão noturna, que muito o afligia, e para a qual nenhum de seus sábios ou magos tinha explicação: “O faraó teve um sonho: encontrava-se ele perto do Nilo, de onde saíram sete vacas belas e gordas, que se puseram a pastar a verdura. Mas, eis que saíram em seguida do mesmo Nilo sete outras vacas, feias e magras, que vieram e se puseram ao lado das outras na margem do rio. As vacas feias e magras devoraram as sete vacas belas e gordas. E o faraó despertou” (Gen 41, 1-4).

Aconselhado pelo copeiro-mor, quem tivera um sonho interpretado por José, o faraó mandou tirá-lo da prisão e chamá-lo à sua presença, dizendo-lhe: “Tive um sonho que ninguém pôde interpretar. Mas ouvi dizer de ti, que basta contar-te um sonho para que tu o expliques” (Gen 41, 15). José, tendo ouvido a narração, expôs ao faraó sua interpretação, não sem antes reconhecer com humildade que seria Deus quem o iluminava: “José disse ao faraó: Deus revelou ao faraó o que Ele vai fazer. As sete belas vacas são sete anos. As sete vacas magras e feias que saíram em seguida são também sete anos de miséria. É como eu disse ao faraó: Deus lhe revela o que vai fazer. Haverá sete anos de grande abundância para todo o Egito. Virão em seguida sete anos de miséria que farão esquecer toda a abundância no Egito. A fome devastará o país. Agora, pois, escolha o rei um homem sábio e prudente para pô-lo à testa do país. Nomeie também o faraó administradores no país, que recolham a quinta parte das colheitas do Egito, durante os sete anos de abundância. Eles ajuntarão todos os produtos destes bons anos que vêm, e armazenarão o trigo nas cidades, à disposição do faraó como provisões a conservar. Estes mantimentos formarão para o país uma reserva em previsão dos sete anos de fome que assolarão o Egito. Dessa forma o país não será arruinado pela fome” (Gen 41, 25-30.33-36).

As palavras de sabedoria de José, cheio do espírito de Deus, agradaram ao faraó e aos egípcios. Por isso, com decreto real, foi feito ele administrador do vasto império: “Pois que Deus te revelou tudo isso, não haverá ninguém tão prudente e tão sábio como tu. Tu mesmo serás posto à frente de toda a minha casa, e todo o meu povo obedecerá à tua palavra: só o trono me fará maior do que tu” (Gen 41, 39-40).

A glória de ter sido o prudente administrador do Egito pressagiava o cumprimento de seus sonhos na juventude. Durante os anos da fome e da pobreza viu diante de si seus irmãos que se lhe prostravam e, mais tarde, traziam a seu encontro toda a família. O sol, a lua e as onze estrelas estavam inclinados a seus pés. Eis o grandioso fim dos que confiam em Deus em meio aos aparentes e terríveis desmentidos: a promessa sempre se realiza acima das expectativas, como sucedeu ao casto José.

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A vida misteriosa de São José também é permeada por promessas, provações e glórias de uma grandeza ímpar.

003Podemos imaginar o jovem carpinteiro, pervadido de espírito de contemplação, e desejoso de consagrar a Deus sua mente, seu coração e seus atos. Levado pela Providência ao matrimônio, descobre a criatura mais bela e mais pura, e ouve de seus lábios o ardoroso desejo de permanecer virgem. José exulta em seu interior e lhe confessa nutrir os mesmos sentimentos. E eis que se realiza na História o primeiro matrimônio entre dois virgens. A pureza lhes assegurava um coração indiviso, todo dedicado ao louvor de Deus, e o vínculo conjugal lhes garantia uma união de desígnios como nunca houve. Tudo fazia pressagiar um intuito especialíssimo de Deus para aquele casal excepcional. Porém, quando chega a plenitude dos tempos, Maria recebe a missão de ser a Mãe do Messias e Senhor. José, porém, fica, de certo modo, à margem.

Diante de seus olhos se realiza o prodígio profetizado por Isaías. A Virgem conceberá e dará à luz um filho. Mas e ele, terá algum papel nesse mistério? O silêncio enigmático da Providência parece contrastar com os anseios mais íntimos de José, pois nenhuma palavra se faz ouvir do Céu, ao contrário do ocorrido com Maria sua esposa, visitada por Gabriel.

Movido pela humildade mais profunda, decide retirar-se em segredo. Quem era ele na sua pequenez para permanecer diante dessa terra sagrada que era Maria? No auge da prova, decidido já a partir, logra conciliar o sono, tal era a tranquilidade de sua consciência, a pureza de sua intenção e sua resignação à vontade divina.

E eis que Deus, comovido diante de tanta despretensão, se mostra benigno, e faz da submissão de José o pedestal de sua glória. As palavras do Anjo, referidas em sonhos, devem ter repercutido em José como a sinfonia mais gloriosa e mais bela. Sua missão junto a Maria era a mais alta de todos os tempos: criar e educar o filho de Deus feito homem! Todos os seus desejos foram cumpridos com superabundância! Não abandonaria Maria, sua amadíssima esposa, mas permaneceria ainda mais unido a Ela pela sua fecundidade virginal. Sem concurso de varão, mas no seio de uma família autêntica, nasce Jesus, a quem José daria o nome, fazendo neste mundo as vezes de seu Pai celeste.

Com efeito, segundo afirma o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, “como legítimo consorte de Nossa Senhora, possuía São José plenos direitos sobre o Fruto das entranhas imaculadas d´Ela, embora este Fruto houvesse sido engendrado pelo poder do Espírito Santo. Quer dizer, sem contar a própria maternidade divina, não se pode conceber vocação mais extraordinária! É uma grandeza inconcebível”[1].

Grandeza que se verificaria ainda diante de circunstâncias desfavoráveis. São José ainda seria visitado pelo Anjo, em sonhos, outras vezes. Uma para evitar que as garras do ímpio Herodes aferrassem o Divino Infante para dar-lhe morte: é a fuga para o Egito. São José deve enfrentar as dificuldades de uma viagem longuíssima e perigosa para aqueles tempos, levando uma mãe jovem com uma criança de colo. Por isso São José tem sido comparado aos cruzados, pois teve a coragem de enfrentar todas as adversidades e obedecer à voz do alto: “Muito mais do que retomar o Santo Sepulcro é defender o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo! E disso São José foi gloriosamente encarregado, tornando-se o cavaleiro-modelo na proteção do Rei dos Reis e Senhor dos Senhores”[2]

004Depois das sucessivas sinuosidades e incertezas de seu especial caminho, São José, graças à virtude da confiança, viu-se elevado ao mais alto grau da santidade, só superado por sua virginal esposa e pela humanidade de Jesus Cristo.

“Era o ápice do cumprimento de todas as promessas, a perfeita realização de um chamado que passou por indizíveis perplexidades e incomparáveis glórias. E São José, declarado Patrono da Igreja, ocupa no Céu um lugar tão eminente que recebe o culto de protodulia. Ou seja, abaixo de Nossa Senhora – a qual merece a devoção de hiperdulia – é ele o primeiro a ser venerado na extensa hierarquia dos santos. Grandiosa recompensa à qual fez jus esse varão que praticou em grau elevadíssimo a virtude da confiança” [3].

 Pe. Carlos Javier Werner Benjumea, EP

[1] Corrêa de Oliveira, Plinio. In Revista Dr. Plinio, n. 12, p. 13.

[2] Corrêa de Oliveira, Plinio. In Revista Dr. Plinio, n. 12, p. 16.

[3] Corrêa de Oliveira, Plinio. In Revista Dr. Plinio, n. 12, p. 17.